SÉRGIO KRITHINAS
O último teste do Benfica na pré-temporada foi uma espécie de saco de areia molhada que impediu o balão de euforia encarnada de voar até às nuvens. A derrota de ontem por 1-0 na terceira edição da Eusébio Cup, frente ao Tottenham, o adversário mais cotado que o clube da Luz defrontou até agora - quarto classificado da última Premier League - mostrou que a equipa de Jorge Jesus tem uma larga margem para melhorar. Mesmo que, e este é um factor que não pode ser esquecido, os jogadores tenham claramente acusado o desgaste físico da sucessão de jogos: ainda no domingo, menos de 48 horas antes, Jorge Jesus montou precisamente o mesmo onze para defrontar o Aston Villa, no Torneio do Guadiana. Aliás, ficou demonstrado que é com este 4x3x3 muito fechado no ataque que os campeões nacionais vão tentar vencer a Supertaça ao FC Porto, já no próximo sábado.
Ao Benfica, já se disse, faltaram sobretudo pernas. Mas também faltaram ideias e largura, como se prova pelas poucas oportunidades de golo criadas na primeira parte, o período que deve ser avaliado com mais atenção, pois após o intervalo tudo foi condicionado pelas constantes substituições. Com extremos abertos e clássicos, a equipa da Luz poderia ter criado outro tipo de problemas frente a um adversário muito compacto entre o meio-campo e a defesa.
Os três da frente jogaram perto uns dos outros e raramente conseguiram evitar a tendência de fugir para o centro. Saviola era quem mais dava nas vistas, com movimentações inteligentes e boas combinações com Aimar. Jara, o grande destaque entre os reforços nesta pré-época, pareceu ter sido o que mais acusou o peso dos minutos nas pernas. Além disso, nem as habitualmente rápidas transições ofensivas saíam bem.
Aproveitava o Tottenham, com um ataque rápido, venenoso e pelos flancos. Garreth Bale mostrou ser uma espécie de Coentrão do lado inglês. O lateral-esquerdo passou a maior parte do tempo no meio-campo ofensivo e causou imensos problemas a Rúben Amorim. Foi ele quem, depois de fugir ao lateral do Benfica, marcou o único golo da partida, aos 55', num lance em que toda a defesa encarnada esteve passiva.
O ambiente estranhamente apático na Luz - onde esteve uma assistência abaixo de meia casa, algo raramente visto desde que Jorge Jesus é treinador das águias - nem reagiu. Por esta altura, já os encarnados jogavam no 4x1x3x2 que fez escola na maior parte da época passada. E, nesse sistema, percebeu-se uma vez mais a falta que Di María faz, pois este plantel não tem nenhum extremo capaz de criar desequilíbrios e alargar o ataque aos 68 metros entre as linhas laterais do relvado da Luz. Assim se explica também a opção de Jesus em apostar num ataque condensado no centro, a viver das acções dos principais artistas.
A derrota e o primeiro jogo sem marcar nos 10 da pré-temporada não fazem do Benfica uma equipa pior do que era antes. Longe disso: é, neste momento, a melhor em Portugal e, no sábado, começará a época oficial como favorita para a partida da Supertaça, frente ao FC Porto. Mas está muito longe de ser uma equipa imbatível.
Benfica 0 Tottenham 1
Estádio da Luz
Árbitro Pedro Proença
-
Benfica
Roberto (Moreira INT) (Júlio César 73'); Rúben Amorim (Luís Filipe 63'), Luisão (Sidnei 63'), David Luiz (Roderick 73'), Fábio Coentrão (Fábio Faria (63'); Airton (Javi García INT), Carlos Martins, Aimar (Felipe Menezes 56'); Jara (César Peixoto INT), Saviola (Weldon 56') e Cardozo (Kardec 56')
Treinador Jorge Jesus
Tottenham
Gomes (Cudicini INT); Walker (Naughton INT), Dawson, Corluka, Bale (Rose 63'); Lennon, Huddlestone, Jenas, Modric (Kranjcar INT); Giovanni dos Santos (Townsend 70'); Crouch (Defoe INT)
Treinador Harry Redknapp
-
Ao intervalo 0-0
Golos 55' Bale .
amarelos Jenas 62'
vermelhos Nada a assinalar
As tácticas de Jorge Jesus
Como começou: 4x3x3
Este é o sistema táctico com que Jorge Jesus se prepara para atacar a temporada, com dois triângulos no meio-campo e ataque: Airton, Carlos Martins e Aimar no meio-campo, Jara e Saviola no apoio a Cardozo. Tudo muito dinâmico e com constantes mudanças de posição.
Como acabou: 4x1x3x2
As alterações durante a segunda parte mudaram completamente o figurino do Benfica, que terminou num sistema táctico semelhante ao que utilizou na maior parte da época passada. O problema é que falta um desequilibrador como Di María, fundamental para alargar o ataque.

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